Ela sai do trabalho, passa no mercado, compra seu suco favorito, um chocolate, para ver se ainda há um certo doce no tempo, e pega o caminho de casa. Vai pensando em tudo que vem acontecendo nos últimos dias, tudo tão confuso, tão inquieto e tão complicado. Não consegue mais distinguir seus sentimentos, sua razão, não consegue mais controlar seus impulsos, o que antes estava sob rédeas, já havia perdido as estribeiras.
Chega em casa, toma um banho para acalmar os ânimos, olha para a cama, para o sofá e pensa "O único dilema que poderíamos ter na vida é entre deitar na cama e tirar um cochilo ou simplesmente sentar no sofá, tomar um café e escrever...", sendo assim, preparou um café forte, colocou o suco na geladeira, pegou seu chocolate, seu computador e foi para o sofá, sabia que precisava, que deveria, colocar todos aqueles sentimentos, indecisões, conflitos e um pouco da razão que lhe restava para fora.
Abriu o bloco de notas e começou a digitar tão freneticamente quanto as batidas do seu coração, quanto as batidas do coração dela, que havia escutado tão nitidamente na noite anterior.
"Ainda parece um sonho, um confuso, intenso e nítido sonho, daqueles que você não quer acordar, daqueles que tem algo te puxando pra sanidade e você quer simplesmente ficar no inconsciente, observando, aproveitando, apenas curtindo. Não parece real quando você me chama pra dentro de você, claro, não no sentido literal, mas quando você me deixa saber mais sobre seus pensamentos e até sobre seus sentimentos. Isso deveria acontecer com mais frequência para eu conseguir lidar, para eu conseguir digerir e passar a acreditar mais. Não que eu não acredite em você, acredito demais nas coisas que me diz e por isso, quase sempre, não sei reagir a você. Talvez isso aconteça mutuamente, não sabemos como reagir uma a outra, só queremos seguir esse impulso, entende? Não, acho que já to perdendo a cabeça. Será que trocamos nossos papéis? Até outro dia eu era a impulsiva e você a racional, e como estamos agora? Talvez devêssemos..."
O telefone acendeu, era uma mensagem: "Acho que você deveria aparecer aqui na porta da sua casa."
O coração vibrou, seus olhos encheram de lágrimas e ela simplesmente não sabia o que fazer. Olhou para a tela do computador, tentou pensar em qualquer outra palavra pra continuar aquele texto e não havia nada, em branco, tudo simplesmente se esvaiu.
Ela fechou o computador, prendeu e soltou o cabelo umas cinco vezes, se olhou no espelho, viu aqueles olhinhos brilhando e disse pra si mesma "Deixa desandar, quem sabe assim você encontra seu caminho, boba...", foi correndo até a porta e sabia que, naquela tarde, ela seria tão feliz quanto na noite de ontem.