sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Seja bem vindo de volta!

"Você sumiu!" disse o Sr. Bernardo, o senhor da mercearia. "Sumi nada, seu Berna! To aqui todos os dias como sempre!" e dei um meio sorriso simpático. Forçado. "Que nada menina! Faz mais de semanas que você não aparece! Até andei preocupado...". Essa exclamação do seu Berna me deixou preocupada. Há quanto tempo eu não saio de casa? Dois dias? Talvez três, no máximo. Não, ele disse que era mais de semanas, ou seja, mais do que calculei. Meu Deus! O que eu estou fazendo?
Parei pra pensar no que havia feito nesse últimos dias. Onde eu me perdi? 
Lembrando da rotina que criei, só conseguia me lembrar de dormir, dormir por horas a fio. E escrever, tive um flash de páginas esvoaçando pelos corredores da casa. 
Comprei o que precisava e fui correndo para casa. Precisava achar essas páginas e saber o que havia feito.
Entrei em casa e tudo parecia um campo minado. Como eu havia deixado minha casa daquele jeito? Fui pegando os papéis, um a um, deu quase um livro. Será que eu consegui, finalmente, escrever meu tão ansiado livro depois de anos do último fracasso? Sentei na cama, abri o pote de sorvete e comecei a ler cada página que havia escrito.
Senti um gosto horrível na boca. Olhei o sabor do sorvete e o que poderia estar errado: creme de ameixas. Seu favorito. Até quando isso? Até quando viver nesse automático? Joguei o pote de sorvete dentro do congelador. Deitei cama e comecei a ler aquelas inúmeras páginas rabiscadas. 
Depois de horas, voltei ao meu mundo e de repente senti. Senti aquela pancada, aquela náusea, aquele gosto amargo na boca e o nó na garganta. Por quê sempre quando temos uma desilusão na vida a que mais dói é a amorosa? Não estava acreditando no que lia naquelas páginas. Afinal de contas, não conseguia acreditar no que tinha acontecido. No que havia feito da minha vida. Definitivamente, ela não voltaria, ela não tinha motivos pra isso. E não havia nada que eu pudesse fazer que a traria de volta. 
Acabei descobrindo por quanto tempo "me ausentei". 27 dias. Não sabia o que fazer. Não sabia como estava na faculdade, no trabalho, não sabia o paradeiro da minha gata. Olhei ao redor, seu pote de comida e água estavam vazios, a janela estava aberta com um cinzeiro em cima do parapeito atolado de cigarros: Malboro de filtro vermelho, porque ela não gostava de coisas fracas. Já não conseguia mais sentir seu perfume amadeirado, "de classe" como ela mesma definia. Parei de pensar.
Sai correndo pela porta em busca do meu último bem precioso. Precisava me sentir útil pra alguém, precisava cuidar de alguém e amar, finalmente, quem sempre me amou. Bee estava ali, com aqueles olhos amarelos enormes e brilhantes, ansiando pela minha volta. Física e espiritual. Peguei ela no colo, fiz um carinho e voltei para casa.
"Precisamos reorganizar nossa vida agora, neném. Ela não vai voltar pra te amar mais do que eu sempre amei. Nem pra te dar seu biscoito favorito. Somos só eu e você agora." Ela me afagou, soltou um miado e pulou do meu colo. Foi se afofar do outro lado da cama, do lado que sempre foi reservado. Eu olhei para minha casa e sabia que precisava viver. Esses 27 dias foram passivos demais.
Peguei um pedaço de papel ao acaso que estava jogado perto da cama e apenas li: "O amor é como o vício em heroína. Você sabe que aquilo vai te destruir e, ainda assim, se sente incontrolavelmente atraído!" 
Peguei tudo, fiz uma enorme junção de páginas desgovernadas e joguei dentro de uma caixa. Coloquei no fundo do armário, onde não procuraria tão cedo. Limpei a casa. Tomei um banho. Bem vinda de volta!  

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Indas e vindas...


E então ela simplesmente desistiu, pegou o primeiro avião pra lugar nenhum e foi. Foi sem pensar, sem sentir, sem mais tentar. Seu coração já não aguentava mais.
Chegou no aeroporto e viu todas aquelas pessoas, correndo pra lá e pra cá, vivendo tão intensamente que até chegava a doer. Doía nos ossos, na pele, nos órgãos. Mas ela já não queria sentir dor. Então ela foi...
Cansou de textos de amor, de dor, tão pobres de cor. Cansou de tentar, simplesmente desistiu. Soube que depois daquela, as outras seriam insignificantes e os outros seriam só os outros. Cansou de pensar, de imaginar, de sonhar tantas vezes inutilmente.
Então ela acabou naquele bar caro de aeroportos e não queria olhar para os lados, sabia que ali nada havia, já não era mais seu ponto de encontro com aquela princesa que sonhou em possuir, sabia que ali havia apenas bebidas caras, corações vazios e mentes ocupadas. Ordenou ao garçom:
- A bebida mais cara e mais doce que você tiver, por favor. 
Ela sempre teve mais afeição por coisas doces, como bebidas e pessoas. Nunca fez questão das coisas caras e grandemente importantes, sabia encontrar nas coisas simples sua felicidade, quão clichê era isso?
Soube, a partir de então, que ela não era tão simples assim e foi toda aquela complexidade que a fascinou. Tão controversa! Por isso desistiu, soube que ela não estava preparada para sua tamanha simplicidade e doçura
tanto quanto ela estava preparada para a complexidade e imensidão dela.
Pegou o primeiro avião e partiu para outros encontros e mais desencontros! 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Causa perdida

"É claro, também, pelo que lá atrás ficou dito, que nada dura para sempre. Nada vai te satisfazer mais do que a auto-felicidade, que consiste na simples propriedade de nós mesmos nos fazermos felizes. 

Mas, por gentileza, não se engane, há uma coisa que também consegue nos fazer feliz, uma coisa clichê, mas que, na minha mera opinião de poetisa, também pode ser chamada de dom e, como qualquer outro dom, não são todas as pessoas que nascem com ele. Não é tão fácil amar, amor! Nem todo mundo sabe fazer bom uso de seus dons, nem todo mundo sabe lidar com eles. Quem não sabe, sofre e faz sofrer. E isto é quase um insulto, já que ninguém admite que sofre e ninguém sabe que faz sofrer. 

Fora isso, se você soubesse o sabor doce que o amor tem, amaria por toda a vida! Não só o amor fraterno, materno, paterno, não. É um amor diferente. É um amor pelo sorriso, pelo olhar, pelos trejeitos, pelas qualidades e defeitos, pelo modo de andar, de falar, de demonstrar. Não necessariamente por uma pessoa, mas quando isso acontece... Ah! Todos sabem quando isso acontece. Basta observar só um pouquinho, só de te ver em qualquer lugar, todos saberão que você está apaixonada. Todos saberão que você encontrou alguém para aquecer seu coração e nem precisa ser recíproco, só de saber que está lá, que existe, que se ama, o inverno nunca será tão esperado apesar de ser tão frio... Você sabe que a vida e aquele sentimento tão adocicado estarão lá para tornar tudo mais afável.

Há uma linha tênue, sublime, entre o caos e a ordem que o amor causa dentro da gente e a tendência não é acalmar, não... É só multiplicar, ele vai crescer e vai crescer com um entusiamo exagerado e uma paixão desenfreada."
Foi assim que eu consegui entender o amor. E, por fim, no embalo dessa noite fria de outono, ela terminou: 

"Conforme-se, meu bem, se você ama! O amor faz parte das coisas mais simplórias e como já dizia Ana: o amor ocupa o primeiro lugar da lista das causas perdidas."

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Fugindo da rotina...

Ela sai do trabalho, passa no mercado, compra seu suco favorito, um chocolate, para ver se ainda há um certo doce no tempo, e pega o caminho de casa. Vai pensando em tudo que vem acontecendo nos últimos dias, tudo tão confuso, tão inquieto e tão complicado. Não consegue mais distinguir seus sentimentos, sua razão, não consegue mais controlar seus impulsos, o que antes estava sob rédeas, já havia perdido as estribeiras. 
Chega em casa, toma um banho para acalmar os ânimos, olha para a cama, para o sofá e pensa "O único dilema que poderíamos ter na vida é entre deitar na cama e tirar um cochilo ou simplesmente sentar no sofá, tomar um café e escrever...", sendo assim, preparou um café forte, colocou o suco na geladeira, pegou seu chocolate, seu computador e foi para o sofá, sabia que precisava, que deveria, colocar todos aqueles sentimentos, indecisões, conflitos e um pouco da razão que lhe restava para fora.
Abriu o bloco de notas e começou a digitar tão freneticamente quanto as batidas do seu coração, quanto as batidas do coração dela, que havia escutado tão nitidamente na noite anterior. 
"Ainda parece um sonho, um confuso, intenso e nítido sonho, daqueles que você não quer acordar, daqueles que tem algo te puxando pra sanidade e você quer simplesmente ficar no inconsciente, observando, aproveitando, apenas curtindo. Não parece real quando você me chama pra dentro de você, claro, não no sentido literal, mas quando você me deixa saber mais sobre seus pensamentos e até sobre seus sentimentos. Isso deveria acontecer com mais frequência para eu conseguir lidar, para eu conseguir digerir e passar a acreditar mais. Não que eu não acredite em você, acredito demais nas coisas que me diz e por isso, quase sempre, não sei reagir a você. Talvez isso aconteça mutuamente, não sabemos como reagir uma a outra, só queremos seguir esse impulso, entende? Não, acho que já to perdendo a cabeça. Será que trocamos nossos papéis? Até outro dia eu era a impulsiva e você a racional, e como estamos agora? Talvez devêssemos..."
O telefone acendeu, era uma mensagem: "Acho que você deveria aparecer aqui na porta da sua casa."
O coração vibrou, seus olhos encheram de lágrimas e ela simplesmente não sabia o que fazer. Olhou para a tela do computador, tentou pensar em qualquer outra palavra pra continuar aquele texto e não havia nada, em branco, tudo simplesmente se esvaiu. 
Ela fechou o computador, prendeu e soltou o cabelo umas cinco vezes, se olhou no espelho, viu aqueles olhinhos brilhando e disse pra si mesma "Deixa desandar, quem sabe assim você encontra seu caminho, boba...", foi correndo até a porta e sabia que, naquela tarde, ela seria tão feliz quanto na noite de ontem.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Limpando a alma...

Não sei você,
Mas ainda estou
Te amando!
Bem de longe,
Bem de perto,
Bem intenso...
Não sei a sua,
Mas a minha vida
Tem me ensinado
Coisas bem bonitas,
Loucuras, metas,
Sombras e rocks...
Tem sido bem,
como posso lhe dizer,
Volátil?
Talvez até inconstante,
Mas sempre
limpando a alma!

segunda-feira, 31 de março de 2014

Receitas de amor...



Oh morena dos cabelos cacheados,

Vem me ver!
Vem fazer o que sabemos
fazer de melhor:
Cozinhar amor!
Uma pitadinha de sal,
um punhado de pimenta e
sete colheres de muita
Paixão!
Vem, podemos arrumar 
uns raminhos de hortelã e
fazer um chá,
deitar no sofá e
nos deixar levá...

quarta-feira, 5 de março de 2014

É na escuridão da noite...


"Olhei pra todos os lados e não vi. A única pessoa que via era aquela que eu não queria ver, aquela que só me fez mal, aquela que sempre me afetou - de um jeito, ou de outro -, aquela com qual a minha relação é estreitamente de amor e ódio, onde há uma linha tênue entre a razão e a emoção. Será que ela tem razão ou eu que sou emocional demais? Que ela me afetou, é fato, mas não foi de uma maneira boa, afável. Ela me afeta de uma maneira ruim, de tal forma que faz com que minha consciência pese dez toneladas e minhas pernas cheguem a tremer. Não sei dizer o que é isso, se são as coisas ruins pelas quais passamos ou se são as coisas horríveis pelas quais ela já me fez passar... A única coisa que eu sei é que eu a amo, infelizmente. Sim, infelizmente e com toda dor no coração, eu digo que a amo. Como não amá-la? Tenho apenas um motivo para isso, porque os outros são motivos para eu me deleitar em lágrimas e querer fazer besteiras. Mas sei que não devo, que não posso... Que não consigo.
Não estou escrevendo isso para expor sentimentos, não... Estou escrevendo isso porque não tenho ninguém no momento. Queria estar com outra pessoa agora, trocando beijos e carinhos, mas essa outra pessoa nem ao menos me considera. Uma coisa acarreta outra, e já são tantas, que não sei mais como tudo isso virou... Isso tudo. Minha cabeça está fervendo, meus olhos sangrando de tantas lágrimas derramadas, meus pulmões já não lembram do ar que eu supostamente deveria respirar e meu coração já não se aguenta mais de tantos soluços. Na verdade, tudo isso metaforicamente, porque não estou mais conseguindo chorar, nem dormir. Tenho medo. Medo de não parar mais, medo de alguma coisa acontecer e eu ter mais motivos para chorar, medo da escuridão, medo da solidão. 
O que mais me dói é que, supostamente, existe alguém nesse mundo que daria tudo pra estar comigo agora, por pior que ela já tenha me feito. E acho que esse alguém merece mais minha companhia do que essa cama vazia e esse quarto frio. 
Sei que alguém irá ler isso em breve e peço, encarecidamente, que guarde tudo isso em segredo. Não quero que outras pessoas saibam quão fraca eu sou. Sei que já aguentei muitas coisas, mas já são tantas coisas acumuladas no meu coração, na minha cabeça, que eu não sei mais como me livrar de tudo isso. 
Viver parece tão fácil. Poderia ser muito fácil, mas tem gente que simplesmente nã
o consegue viver bem, ficar bem, ser feliz. Isso machuca tanto meu coração. As vezes penso que sou uma pessoa ruim demais pra viver nesse mundo, mas será?
Acho que estou entrando em ebulição. 
Meus olhos estão tentando se fechar e eu não posso deixá-los fechar, tenho medo. Estou com sono, preciso dormir, meu corpo dói e está cansado, mas não posso deixá-lo descansar. Tenho que ficar acordada, tenho que esperar esses barulhos passarem, esses pensamentos me deixarem, a luz do sol sair, os pássaros começarem a cantar. Tenho medo, muito medo. Não queria sentir isso, não queria estar aqui sozinha.
Queria conseguir chorar pra aliviar todos esses sentimentos que estou sentindo agora, mas sei que não adiantaria. 
Não quero ser essa pessoa que eu mesma estou criando na minha cabeça. Eu preciso mudar. Preciso me libertar! Mas como? 
Dói. Dói demais. 
Estou com tanto medo essa noite. Não conseguirei dormir, então acho que irei arrumar algo pra fazer. Vou tentar ler um livro. Talvez eu volte. Talvez não." 
- Ela voltou o olhar para o espelho e encarou aqueles olhos pretos profundos, fechou o diário, colocou em cima da escrivaninha e soltou o ar; pegou seu livro surrado favorito e sentou no chão... Lá ficou por horas a fio.