Frio quase europeu...
Naquela tarde, sentindo um frio quase europeu, depois de horas de labuta, ela sai para tomar um ar, sai para ver a lua e as luzes da cidade. Já não sabe em quem e em que pensar, está com a cabeça abarrotada de coisas e a única coisa que gostaria muito de fazer agora é sentar em uma cabine qualquer, mas não de uma roda gigante qualquer, e ver a cidade, observar cada centímetro daquela pintura surreal. Depois andar por um parque de diversões enorme, mas sem diversão, comprar um algodão doce simples, cor-de-rosa, para tirar aquele gosto amargo de saudade da boca, do estômago. Já não pensava mais em mudar, tampouco em se casar, suas esperanças, antes vãs, agora se tornaram tolas e totalmente perdidas.
Não há mais uma chama acesa dentro de seu coração, seu trabalho diário já não rende e sua alimentação está escassa. O que as pessoas de hoje em dia chamam de arte? Ela se pergunta isso todos os dias, mas não há uma resposta.
Ela sente falta dela. Sente falta daquele amor de verão, que perdurou por vários e vários verões. Mas agora não há mais verão. E em meio à esse frio, quase europeu, ela volta pra casa, contando os passos, contando os carros, decorando suas placas, adotando os cães e os gatos que encontra pelo caminho. Ah, se ela pudesse, levaria todos para casa. Mas chegando em casa, já de coração partido, com a cabeça transtornada e as mãos vazias, toma um copo d'água e vê o quanto aquele simples gesto a faz lembrar dela: ela amava beber água. Coloca o copo em cima da mesa e checa a secretária eletrônica, há um recado: Estive em sua casa, entrei. Me desculpe a intromissão, mas tive que cuidar para ver se já não havia adotado algum gato, você sabe, sua rinite alérgica não iria gostar... Gostaria de estar aí para te aquecer nesse frio quase europeu (ouve aquela breve risada contagiante dela ao fundo do telefone), mas saiba que eu...
Sim, eu também sinto sua falta, ela pensou alto. Pegou as chaves de casa, saiu e trancou a porta. Se ela esteve lá, sabia onde encontrá-la.
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